Cineclube Arlindo Machado apresenta Futebol como nunca antes: o corpo em campo
O Cineclube Arlindo Machado apresenta Futebol como nunca antes: o corpo em campo — uma sessão com excertos de três filmes que inventaram um outro modo de olhar o jogo. Não o documentário biográfico, não o drama esportivo, não a narração dos gols: um cinema-futebol que que acontece porque a câmera escolheu o homem, não a bola. Serão exibidos excertos de Garrincha, Alegria do Povo (Joaquim Pedro de Andrade, 1963), Football as Never Before (Hellmuth Costard, 1971) e Zidane, un portrait du 21e siècle (Gordon & Parreno, 2006), seguidos de debate com a diretora de fotografia Patricia Gimenez
No Brasil, o cinema-futebol tem uma história própria. O Canal 100 — o noticiário cinematográfico de Carlos Niemeyer, exibido nas salas de cinema brasileiras de 1959 a 1986 — foi durante décadas a principal imagem em movimento do futebol nacional. Com câmeras de 16mm, equipes de campo e uma estética visual cuidadosa, o Canal 100 produziu um olhar sobre o jogo radicalmente diferente do que a televisão viria a consagrar: sem o ângulo único da câmera central, sem o locutor esportivo, sem o replay imediato. Era cinema, não transmissão.
Esta sessão propõe um percurso por três obras que definem esse cinema-futebol em sua forma mais radical. Três filmes feitos em três países, três décadas separadas, três formatos distintos de captação — e a mesma pergunta: o que vemos quando a câmera abandona a bola e escolhe o homem?
Os três filmes
Garrincha, Alegria do Povo (1962/63)
Joaquim Pedro de Andrade é um dos fundadores do Cinema Novo brasileiro. Seu primeiro longa-metragem não é de ficção: é um documentário sobre Mané Garrincha, o maior drible da história do futebol brasileiro, bicampeão mundial em 1958 e 1962. Filmado em 35mm preto e branco, o filme mobiliza a fotografia de Mário Carneiro, narração em off e imagens de arquivo para construir um retrato que é simultaneamente de um jogador e de um país.
Selecionado para a 13ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim (1963) e premiado no Festival de Cortina d'Ampezzo (Itália, 1964), o filme foi identificado por Glauber Rocha como uma das origens do Cinema Novo. Restaurado e reapresentado na 63ª edição do Festival de Veneza em 2006.
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Direção |
Joaquim Pedro de Andrade |
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País / Ano |
Brasil, 1962–63 |
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Duração |
~60 min |
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Jogador |
Manuel Francisco dos Santos — Mané Garrincha (Botafogo / Seleção Brasileira) |
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Fotografia |
Mário Carneiro |
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Produção |
Armando Nogueira e Luiz Carlos Barreto |
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Captação |
35mm, preto e branco |
Fußball wie noch nie / Football as Never Before (1970/71)
Hellmuth Costard é uma das figuras centrais do cinema experimental alemão dos anos 1960 e 70, próximo a Alexander Kluge, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Em 12 de setembro de 1970, Costard instalou oito câmeras de 16mm em Old Trafford e fez algo inédito: durante os 90 minutos de Manchester United contra Coventry City, as câmeras nunca saíram de George Best. Não existe trilha sonora composta. Não existe narração. Só o som ambiente — a multidão, o couro batendo, o árbitro apitando — e o corpo de Best: esperando, andando, explodindo em velocidade, e voltando ao silêncio.
George Best era, naquele momento, o jogador mais famoso do mundo — o "quinto Beatle", segundo a imprensa britânica. Costard usa o cinema para revelar exatamente o que a televisão sempre escondeu: o quanto do futebol é espera, leitura de jogo, presença sem bola. Reconhecido hoje como "o momento warholiano do cinema de futebol" — a referência direta do Zidane de Gordon e Parreno.
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Direção |
Hellmuth Costard |
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País / Ano |
Alemanha, filmado em 1970 / lançamento 1971 |
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Duração |
~105 min |
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Jogador |
George Best — camisa 11, Manchester United |
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Partida |
Manchester United × Coventry City, Old Trafford, 12 set. 1970 |
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Captação |
8 câmeras de 16mm, colorido, som ambiente |
Zidane, un portrait du 21e siècle (2006)
Douglas Gordon (Escócia) e Philippe Parreno (França) são dois dos artistas visuais mais importantes de sua geração. Em 2006, os dois realizaram juntos um filme que é ao mesmo tempo documentário esportivo, retrato cinematográfico, instalação de arte contemporânea e experiência sensorial.
Com fotografia de Darius Khondji — diretor de fotografia de Seven e Amélie — e trilha sonora do grupo escocês Mogwai, o filme foi captado com 17 câmeras sincronizadas durante a partida Real Madrid × Villarreal de 23 de abril de 2005. Apresentado fora de competição no Festival de Cannes 2006, nomeado ao César de Melhor Documentário em 2007, integra a coleção permanente do Guggenheim de Nova York. Nos minutos finais da partida, Zidane foi expulso por briga. O filme registra essa saída em campo — e a câmera continua.
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Direção |
Douglas Gordon + Philippe Parreno |
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País / Ano |
França / Islândia, 2006 (filmagem: 23 abr. 2005) |
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Duração |
92 min |
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Jogador |
Zinédine Zidane — Real Madrid |
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Fotografia |
Darius Khondji |
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Música |
Mogwai |
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Captação |
17 câmeras — Super 35mm + 16mm + HD |
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Exibição |
35mm anamórfico, 2.35:1 |
A progressão técnica entre os três filmes não é acidental: do 35mm em preto e branco do Cinema Novo (Garrincha) ao 16mm experimental de guerrilha (Costard) ao mix de Super 35mm + 16mm + HD da arte contemporânea (Zidane), o formato de captação é parte do argumento de cada obra. O que muda não é apenas a tecnologia — é a relação entre câmera e corpo, entre cinema e esporte, entre retrato e presença.
Os três filmes formam uma genealogia que a crítica e a historiografia do cinema raramente reconhecem como tal. Esta sessão propõe esse reconhecimento.
Debate
Patricia Gimenez
Mestre em Educação, Arte e História da Cultura e co-autora do artigo "Um filme de pernas tortas: Garrincha, alegria do povo" (DOC On-line, n.º 26, 2019). Trabalha com fotografia cinematográfica desde 2000. Diretora de fotografia de longa-metragens e curta-metragens de produção independente, como as séries em Sense8 (2015), Nada a Perder (2018) e Talvez Uma História de Amor (2018), além do ensaio cinematográfico em 3D, Ëstereo-Ensaios São Paulo (2018).
26 de maio de 2026 | terça-feira
19h00 — Sessão com exibição de trechos de Garrincha, Football as Never Before e Zidane
20h00 — Debate com Patricia Gimenez
Local: Auditório Paulo Freire – TUCA
Rua Monte Alegre, 984 – Perdizes, São Paulo



