Doença pelo Vírus Ebola

Professor-doutor Marcos Vinicius da Silva Professor associado da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP; médico coordenador do Ambulatório de Doenças Tropicais e Zoonoses e do Núcleo de Medicina do Viajante do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor do Ministério da Saúde.

A doença pelo vírus Ebola é uma enfermidade infecciosa viral grave pertencente ao grupo das febres hemorrágicas virais, causada por vírus do gênero Ebolavirus, integrante da família Filoviridae. Reconhecida por sua elevada taxa de letalidade e potencial epidêmico, permanece como uma das principais ameaças emergentes à saúde pública internacional, sobretudo em regiões da África Subsaariana.

Desde sua identificação inicial em 1976, simultaneamente no Sudão e na então República do Zaire, atual República Democrática do Congo (RDC), o vírus Ebola tornou-se objeto de intensa investigação científica nas áreas de virologia, epidemiologia, imunologia e biossegurança. O nome da doença deriva do rio Ebola, localizado próximo ao primeiro surto registrado em território congolês.

Em 5 de maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada sobre um surto de doença de elevada letalidade na zona de saúde de Mongbwalu, província de Ituri, na República Democrática do Congo, incluindo ocorrência de óbitos entre profissionais de saúde. Em 15 de maio de 2026, o Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica de Kinshasa confirmou a circulação do Bundibugyo ebolavirus em amostras analisadas, sendo oficialmente declarado o 17º surto de doença pelo vírus Ebola no país.

O reservatório natural do vírus é representado principalmente por morcegos frugívoros, e a transmissão zoonótica ocorre por contato direto com fluidos corporais ou tecidos de animais infectados, incluindo primatas não humanos. A disseminação entre humanos ocorre principalmente pelo contato com sangue, secreções e outros fluidos corporais contaminados, além da exposição a objetos infectados, como agulhas e superfícies hospitalares, manipulação inadequada de cadáveres e transmissão ocupacional em ambientes de assistência à saúde.

É importante destacar que o Ebola não apresenta transmissão aérea sustentada em condições naturais, diferentemente de infecções respiratórias virais como influenza e COVID-19.

O atual surto é causado por uma das seis espécies reconhecidas do gênero Ebolavirus, denominada Bundibugyo ebolavirus, associada a formas graves da doença e com letalidade historicamente elevada, especialmente em contextos de limitada infraestrutura sanitária.

O período de incubação varia entre dois e 21 dias, sendo que, em geral, a transmissibilidade ocorre após o surgimento dos sintomas. As manifestações iniciais incluem febre, fadiga, dores musculares, cefaleia e dor de garganta. Com a progressão da doença, podem surgir sintomas gastrointestinais, disfunção orgânica e, em alguns casos, hemorragias internas e externas, choque, insuficiência hepática e renal e falência múltipla de órgãos. A inespecificidade dos sintomas iniciais frequentemente dificulta o diagnóstico precoce, sobretudo nas regiões com circulação simultânea de outras doenças infecciosas tropicais.

Embora existam vacinas e terapias específicas aprovadas para algumas espécies do vírus Ebola, especialmente para o Zaire ebolavirus, ainda não há vacinas licenciadas ou tratamento antiviral específico amplamente disponível para o Bundibugyo ebolavirus.

Até o momento, os casos confirmados concentram-se na República Democrática do Congo, sendo o alerta sanitário particularmente importante para viajantes procedentes ou com destino às áreas afetadas. Entre as principais medidas preventivas destacam-se evitar contato direto com sangue, secreções e fluidos corporais de pessoas doentes ou cadáveres suspeitos; evitar contato com morcegos, primatas não humanos e outros animais silvestres potencialmente infectados; higienizar frequentemente as mãos; seguir orientações das autoridades sanitárias locais; e evitar disseminação de informações não verificadas que possam gerar desinformação ou estigmatização.

As febres hemorrágicas virais constituem doenças de notificação compulsória imediata aos três níveis de gestão do sistema de saúde, federal, estadual e municipal, devendo todo caso suspeito ou confirmado ser comunicado em até 24 horas após a suspeita inicial.

 

 

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