Dois Papas: uma ode ao diálogo em tempos de certezas absolutas
Montagem dirigida por Munir Kanaan, em cartaz no TUCA, transforma o encontro entre Bento...
Montagem dirigida por Munir Kanaan, em cartaz no TUCA, transforma o encontro entre Bento XVI e Francisco em uma reflexão sobre escuta, poder e humanidade, reforçada pela história de um teatro que também fez do diálogo uma forma de resistência
Há palavras que envelhecem menos do que as épocas que as criaram. "Ode" é uma delas. De origem grega, o termo designa um poema lírico dedicado à celebração daquilo que merece permanecer na memória. Mais do que exaltar, uma ode reconhece o que resiste ao tempo.
Essa é a impressão deixada por Dois Papas, espetáculo dirigido por Munir Kanaan, em cartaz no TUCA até 27 de setembro. A montagem parte de um episódio recente da história da Igreja Católica para construir uma reflexão que ultrapassa o Vaticano e seus protagonistas. O que está em cena não é apenas o encontro entre Bento XVI e o então cardeal Jorge Bergoglio, futuro Papa Francisco, mas uma homenagem ao que parece cada vez mais raro no mundo contemporâneo, a disposição para ouvir.
A força da peça está em compreender que grandes transformações não começam quando alguém vence uma discussão, mas quando ambos aceitam permanecer sentados à mesa depois que os argumentos parecem esgotados.
Baseado no texto do dramaturgo e roteirista neozelandês Anthony McCarten, o espetáculo transforma um episódio histórico conhecido em matéria-prima para uma dramaturgia que jamais se limita à reconstituição dos fatos. As conversas imaginadas entre Joseph Ratzinger e Jorge Bergoglio talvez nunca tenham acontecido daquela maneira. O teatro, porém, não reivindica o lugar da História, mas o da verdade humana. É justamente nela que a montagem encontra sua maior potência: a escuta.
O espetáculo evita transformar Bento XVI e Francisco em representantes de lados opostos de uma disputa simplificada. Antes de serem símbolos de correntes teológicas, aparecem como homens marcados por culpas, escolhas difíceis, fracassos e distintas maneiras de compreender o mundo.
A encenação encontra no TUCA um elemento dramatúrgico que extrapola a própria cenografia. Não se trata apenas do palco que recebe a temporada. A história do teatro dialoga silenciosamente com a história narrada em cena. "Sempre imaginei Dois Papas no TUCA. Pela história da Universidade, pela vocação democrática do teatro e pela afinidade entre esse espaço e os valores que a peça discute, encerrar esse percurso aqui fecha uma narrativa que sempre fez sentido, afirma Kanaan.
Poucos teatros brasileiros carregam uma memória política tão consistente quanto o TUCA. Palco de resistência durante a ditadura militar, espaço fundamental da história recente do teatro nacional e símbolo permanente da defesa da democracia, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo deixa de ser apenas endereço da montagem para tornar-se parte de sua leitura. Enquanto a peça apresenta dois homens tentando construir pontes entre convicções aparentemente inconciliáveis, o espaço que a abriga recorda que a democracia também depende da permanência dessas pontes.
A montagem não oferece respostas para os conflitos do presente. Recorda que toda transformação começa quando alguém aceita ouvir aquilo que ainda não compreende. É justamente essa humanidade que sustenta as interpretações de Celso Frateschi e Zécarlos Machado, dois atores cuja longa trajetória lhes permite dispensar qualquer demonstração de virtuosismo. Ambos compreendem que personagens dessa dimensão não se constroem pelo excesso, mas pela contenção.
Zécarlos Machado compõe um Bento XVI de precisão rara. O sotaque alemão, a dicção rigorosa e os gestos econômicos jamais se transformam em exibição técnica. São traços incorporados a um homem moldado pelo estudo, pela filosofia e pela disciplina intelectual. Seu Ratzinger parece ter aprendido a compreender o mundo pelos livros, pela música e pela reflexão silenciosa. Fala pouco com o corpo, mas muito com as pausas.
A interpretação impressiona justamente porque evita a caricatura do pontífice conservador. Em vez do guardião inflexível da tradição frequentemente retratado pela imprensa, surge um homem acuado por uma Igreja atravessada por sucessivas crises, isolado entre documentos, decisões difíceis e uma crescente sensação de fracasso. A solidão do poder encontra ali uma forma quase palpável.
Ao seu lado, Celso Frateschi constrói um Jorge Bergoglio igualmente distante do imaginário popular que costuma cercar o Papa Francisco. Conserva o humor, a simplicidade e a proximidade com as pessoas, mas nunca se reduz ao líder carismático conhecido pelas multidões. O ator encontra algo mais interessante, um homem cansado.
Quando Bergoglio desembarca em Roma disposto apenas a entregar os documentos que lhe permitiriam aposentar-se, não há heroísmo em cena. Há um sacerdote de 75 anos convencido de que cumpriu sua missão. O espetáculo acompanha justamente o instante em que esse homem, prestes a abandonar a vida pública, descobre que ainda será chamado a transformá-la.
Frateschi faz isso sem recorrer a explosões dramáticas. Sua interpretação nasce da escuta. Bergoglio observa antes de responder, sorri antes de discordar e acolhe antes de argumentar. Esse modo de estar em cena revela, silenciosamente, a lógica do personagem, compreender o outro importa mais do que vencê-lo.
Ao refletir sobre a atualidade da peça, o ator resume sua essência. "Os dois pensam de forma muito diferente, mas procuram compreender a verdade, não vencer a discussão. É isso que torna a peça tão viva para quem está na plateia”, diz Frateschi.
Essa talvez seja a principal qualidade da dramaturgia de Anthony McCarten. O autor evita a armadilha de escrever um embate entre um progressista e um conservador. Coloca em cena duas maneiras distintas de conhecer o mundo.
Ratzinger chega à experiência humana pela filosofia. Bergoglio chega à filosofia pela experiência humana. Um aprendeu a escutar o silêncio das bibliotecas; o outro, o barulho das ruas. Ao longo da peça, ambos descobrem que a verdade talvez habite justamente o espaço entre essas duas formas de olhar a realidade.
Essa delicada arquitetura dramatúrgica não alcançaria o mesmo equilíbrio sem a presença de Eliana Guttman e Carol Godoy. Interpretando a irmã Brigitta, Eliana Guttman oferece a Bento XVI aquilo que nenhuma autoridade consegue possuir sozinha: intimidade. Sua personagem rompe o protocolo, humaniza o pontífice e introduz discretas doses de humor que aliviam, a densidade da narrativa.
Mais do que auxiliar o Papa, Brigitta funciona como a consciência afetiva da peça. É por meio dela que o espectador percebe um Ratzinger capaz de hesitar, ironizar e até rir de si mesmo. A atriz identifica no espetáculo um aspecto que ultrapassa a própria história da Igreja. "A peça mostra que posições opostas podem ser discutidas sem agressividade. Num tempo em que as pessoas preferem ofender a conversar, isso talvez seja sua maior atualidade."
Carol Godoy interpreta a irmã Sophia, jovem religiosa argentina que acompanha Bergoglio antes de sua viagem a Roma. A personagem introduz leveza e espontaneidade, mas sua contribuição vai além. Ao seu lado, Bergoglio deixa de ser um personagem histórico para voltar a ser simplesmente um homem. Conversa sobre a aposentadoria, manifesta cansaço, demonstra dúvidas e deixa entrever fragilidades normalmente escondidas sob o peso da autoridade.
Como produtora da montagem, Carol Godoy observa que o espetáculo aproxima o público dessas figuras justamente porque as apresenta em sua dimensão mais íntima. "O reconhecimento nasce quando percebemos que, antes de ocupar cargos extraordinários, eles continuam sendo pessoas com as mesmas vulnerabilidades que qualquer um de nós."
Como toda boa ode, Dois Papas não celebra apenas seus personagens. Celebra aquilo que eles tornam possível, ou seja, a esperança de que o diálogo ainda seja capaz de transformar pessoas — e, quem sabe, também o mundo.