Surto em navio de turistas reacende alerta global sobre transmissão inter-humana do vírus Andes e riscos sanitários em viagens internacionais
“Mais do que um episódio isolado, o surto do MV Hondius representa um alerta global sobre...
“Mais do que um episódio isolado, o surto do MV Hondius representa um alerta global sobre doenças emergentes, vigilância em medicina do viajante e os desafios sanitários impostos pela circulação internacional de pessoas em ambientes de alto risco epidemiológico.”

Professor-doutor Marcos Vinicius da Silva
Professor Associado da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde da PUC-SP; médico coordenador do Ambulatório de Doenças Tropicais e Zoonoses e do Núcleo de Medicina do Viajante do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor do Ministério da Saúde.
A hantavirose é uma zoonose emergente de relevância global, causada por vírus da família Hantaviridae, com duas apresentações clínicas principais. No chamado Velho Mundo (Europa e Ásia), predomina a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), enfermidade endêmica com taxas de letalidade estimadas entre 5% e 10%. Já no Novo Mundo, especialmente nas Américas, ocorre a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), forma potencialmente mais grave, cuja letalidade varia de 12% a 50%, dependendo do agente viral, acesso ao diagnóstico precoce e suporte intensivo disponível.
Nas Américas, a infecção pode manifestar-se inicialmente como síndrome febril aguda inespecífica, evoluindo, em parte dos casos, para comprometimento pulmonar e cardiovascular rapidamente progressivo, com edema pulmonar e comprometimento cardíaco, choque circulatório e insuficiência respiratória grave, podendo culminar na síndrome da angústia respiratória aguda (SARA) e óbito. Trata-se, portanto, de importante problema de saúde pública, tanto pela elevada letalidade quanto pelo impacto social e econômico associado.
Diversos hantavírus circulam no continente americano, cada qual associado a espécies específicas de roedores silvestres, seus reservatórios naturais. Entre eles, destaca-se o vírus Andes, predominante no sul da América do Sul, especialmente na Argentina e no Chile. Esse agente possui particular relevância epidemiológica por ser, até o momento, o único hantavírus com transmissão inter-humana claramente documentada, ocorrendo por via respiratória, sem necessidade de exposição direta ao roedor infectado ou seus excrementos — característica que o diferencia dos demais hantavírus conhecidos.
Nesse contexto, o surto ocorrido a bordo do navio de expedição polar MV Hondius, durante viagem iniciada em Ushuaia, Argentina, configura episódio epidemiológico singular e de repercussão internacional. O navio partiu em 1º de abril para sua rota sazonal, atravessando o Canal de Beagle, Península Antártica, ilhas subantárticas e Atlântico Sul, com destino final à África do Sul.
Durante a travessia, no sexto dia de viagem, um passageiro holandês apresentou quadro febril e evoluiu para óbito a bordo no quinto dia de doença. Dez dias depois, sua esposa também adoeceu, falecendo no dia seguinte. Posteriormente, um passageiro britânico, ainda a bordo e prosseguindo viagem, desenvolveu sintomas e foi transferido para unidade de terapia intensiva na África do Sul, onde recebeu o diagnóstico de hantavirose. No dia seguinte, uma passageira alemã também adoeceu durante a viagem e morreu quatro dias depois. Diante da sucessão de casos, o navio permaneceu em quarentena na costa de Cabo Verde, onde ainda foram registrados casos adicionais entre tripulantes.
Até o momento, sete casos foram identificados, com três óbitos confirmados. A Organização Mundial da Saúde, em conjunto com autoridades de vigilância epidemiológica dos países de origem dos viajantes, segue monitorando passageiros, tripulantes e contatos secundários, incluindo indivíduos expostos em voos comerciais utilizados por passageiros desembarcados em diferentes escalas.
As evidências epidemiológicas acumuladas apontam fortemente para transmissão inter-humana do vírus Andes neste episódio, reforçando observações previamente descritas na literatura científica. O evento amplia a preocupação internacional quanto ao potencial de disseminação desse hantavírus em ambientes fechados, com intensa convivência prolongada e mobilidade internacional, como navios de cruzeiro e expedições turísticas.
Mais do que um episódio isolado, o surto do MV Hondius representa um alerta global sobre doenças emergentes, vigilância em medicina do viajante e os desafios sanitários impostos pela circulação internacional de pessoas em ambientes de alto risco epidemiológico.